Natasha Avital

12/05/2010 16:12

Vamos abrir a nossa terceira entrevista com Natasha Avital ela tem 24 anos e mora no Guarujá litoral de SP, ela é servidora pública e faço pós em Direito do Consumidor, nas horas vagas Coordena o Grupo E-Litoral, uma ONG de juventude LGBT aqui da Baixada Santista, sai com amigos, curte rock, e vê muita coisa inútil na internet. 

 

 
Quando e como foi que você percebeu que tinha uma pequena diferença entre as meninas de sua idade? Acho que desde sempre. Eu sou bissexual, e desde pequenininha nunca vi diferença entre relacionamentos hetero e homossexuais. Quando fui crescendo que notei que nem todo mundo era assim. A primeira mulher que eu notei foi quando tinha uns 11 anos. Estava em um casamento, e uma moça mais velha dançou comigo. Claro que sem segundas intenções, mas aquilo mexeu comigo, sonhei com ela naquela noite...hahaha. No colegial, com uns 15 anos, me apaixonei por uma amiga, e cheguei à conclusão de que era bi.
 
Você deixou que transparecesse essa sua “diferença” nessa época? Sofreu preconceito com isso? Como? Quando eu tinha uns 13 anos, escrevia poesia, e um dia começou a circular pela classe um poema que eu tinha escrito pra uma garota, e um caderno meu em que eu anotava algumas coisas estilo ''diário'' e falava de uma garota por quem estava apaixonadinha. Logo começaram as fofocas, e eu fiquei morrendo de vergonha. Nunca mexeram comigo, e minhas amigas disseram que não era problema, mas eu fiz de tudo pra esconder, disse que nao tinha nada a ver, inventei uma desculpa mais esfarrapada que a outra. Fiquei até o colegial, quando mudei de escola, morrendo de medo que alguém tocasse no assunto, e principalmente que meus pais descobrissem.
 
 
Já beijou, namorou ou transou com algum menino por imposição de amigos ou familiares? Como foi a experiência? Eu sou bi, então não se aplica...rrss.
 
 
Recentemente você já sentiu preconceito pela sua sexualidade, caso você for publicamente e visivelmente assumido? Como aconteceu e qual foi sua reação quanto a isso? Já aconteceram algumas coisas sim. Uma vez, eu estava com uma menina no Parque Ibirapuera, em Sampa, andando de mãos dadas. Um grupo de mulheres começou a andar atrás de nós e cantar hinos evangélicos, com a clara intenção de nos provocar (ou expulsar o demo do nosso corpo, sei lá ) Minha reação foi virar e beijar a garota...elas ficaram sem fala...rrss. No mesmo dia, algum imbecil gritou na nossa direção ''Isso é falta de homem!'' Ele tava longe, não lembro se reagi, mas provavelmente fiz um gesto obsceno e o mandei pra PQP...rs. Existem alguns outros preconceitos mais leves, mais velados, do tipo muita gente presumir que eu sou uma pessoa super ''liberal'' sexualmente só pq sou bi, ou de presumirem que meu namoro era aberto só por causa disso.
 
 
Mas você acredita que o preconceito esteja menor ultimamente? Acredito que sim. Há uns dois anos atrás, eu estava em um shopping em São Paulo, e vi entrarem dois meninos, que não deviam ter mais do que 15 anos, caminhando de mãos dadas. Foi lindo ver aqueles dois, de cabeça erguida, demonstrando carinho em público com a maior naturalidade, sendo que há 10, 20 anos atrás, existia uma chance muito maior deles estarem em casa, no armário, sofrendo por causa da própria sexualidade. Dá pra notar isso também nas decisões recentes do Judiciário aprovando coisas como união estável homoafetiva, e adoção por casais homossexuais. Também é maior o número de heterossexuais que não tem preconceito, que têm amigos gays e lésbicas, e que defendem a diversidade sexual. Acima de tudo, me alegram as conquistas de travestis e mulheres transexuais, que ainda sofrem MUITO preconceito, mas têm conseguido, por exemplo, trabalhar como professoras, o que seria impensável há alguns anos.
 
 
Qual sua opinião sobre a parada gay? Você acredita que seus realizadores fazem algo realmente direcionado ao público GLBT e vertentes? Minha opinião é que a Parada começou como um movimento de reivindicação de direitos, mas hoje virou uma grande balada ao ar livre. É normal que esse tipo de coisa aconteça no Brasil. Mas acho que a Parada ainda tem sim uma importância muito grande, pois uma celebração em que milhões de pessoas vão ás ruas mostrar o orgulho de ser o que são tem sim importância política, importância social. Pra muitos jovens que estão no armário ou saindo dele, ir á Parada e ver tantas pessoas sem medo de mostrar sua orientação sexual, ver casais demonstrando afeto em público, é muito importante, marca um momento de transição. A Parada desse ano será importantíssima, pois vai mostrar que, apesar dos ataques terroristas no ano passado, não tem bomba que nos tire da Paulista. A cidade é nossa tanto quanto dos heteros, e não vamos nos esconder para contentar homofóbicos. 
 
Você acredita que há preconceito entre gays? Há sim. De gays mais ''discretos'' contra gays mais ''pintosas'', de gays mais novinhos contra gays mais velhos, de gay rico contra gay pobre, de gay contra travesti, de travesti contra gay, de lésbica contra homem transexual, e de todos contra @ bissexual. Infelizmente, o ser humano adora se enfiar na sua ''panelinha'' e julgar quem é diferente, e isso não muda mesmo quando a pessoa sente o preconceito na pele, e deveria saber o quanto ele machuca. 
 
E entre gays discretos e gays afeminados, existe um preconceito entre ambos? Existe sim. Tem muito gay ''discreto'' que acha que a culpa da homofobia é dos ''afeminados'', como se as pessoas tivessem a obrigação de manter a ''discrição'' pra não ''chocar'' os heterossexuais. Tem muito gay que não entende que o jeito do ''afeminado'' é simplesmente o jeito natural da pessoa, acha que o outro faz de propósito, que é ''forçado''. Mas tb rola um preconceito ocasional dos ''afeminados'', que ás vezes não entendem que o ''discreto'' é ''discreto'' por natureza, e o acusam de estar se reprimindo.
 
 
Seus pais sabem de sua sexualidade? Se sabem qual foi a reação deles e qual foi o impacto perante toda sua família? Meus pais sabem sim. Eu já havia comentado quando era mais nova, com uns 14 anos, que me considerava bissexual, mas eu era tão criança na época, nunca tinha namorado, tinha saído com um menino só, que minha mãe nem levou a sério. Quando eu tinha uns 18 anos, falei de novo, e ela ficou meio chocada, achou que só pq eu tinha um namorado, essa coisa de bissexualidade tinha ''passado''. Ela contou pro meu pai depois, e ele encarou numa boa, é super tranquilo em relação a isso. Não sei quem foi que contou pro meu irmão, ou se ele simplesmente percebeu com o tempo, mas ele não critica, embora tenha feito um comentário sarcástico uma vez em relação à militância que me irritou muito. Minha mãe um dia pediu pra que eu parasse de ''falar de mulher'' em casa. Parei de falar quando a coisa não é séria, mas se eu vier a namorar uma menina, é claro que meus pais vão saber. Também faço questão de comentar do E-Litoral, dos encontros do E-Jovem, e ocasionalmente da beleza feminina de alguma atriz, cantora, etc, pq é parte da minha vida, e não vou esconder isso, meus pais e irmão tem que se acostumar. Eles são evangélicos, mas encaram com mais tranquilidade do que a maioria das famílias evangélicas que eu conheço.
 
Homofobia pra você é…? É sinônimo de histeria. A homofobia geralmente envolve uma crença de que reconhecer que a homo/bi/transexualidade é uma coisa normal, ou até mesmo reconhecer que ela existe, é prejudicial à sociedade, e a um troço vago que os homofóbicos chamam de ''família'' (família de quem? Dos jovens LGBT que não é) Ninguém explica quais problemas poderiam acontecer, ninguém consegue explicar qual é o problema com a homossexualidade além de coisas vagas como ''A biblia condena'' ou ''É anti-natural'' e, mesmo assim, querem insistir que o respeito à diversidade sexual vai trazer a decadência da civilização. Uma olhada nos ''argumentos'' homofóbicos revela um tipo de pensamento típico de teóricos da conspiração. É pura paranóia. Seria ridículo se não trouxesse tantos danos reais a tanta gente, que paga o pato de ser apontado como ''o inimigo'', o bode expiatório de tudo que existe de ruim na sociedade.
 
 
Se você estivesse em algum tipo de comércio, por exemplo, um shopping e sofresse preconceito de algum lojista ou funcionário, qual seria sua reação? Invocaria a Lei 10.948/10, que é a Lei estadual que pune atos homofóbicos. Chamaria o gerente, e perguntaria se ele sabe que o funcionário dele está cometendo uma discriminação que pode dar multa pro estabelecimento, ou até levar á cassação do alvará de funcionamento. Tentaria pegar pessoas que presenciaram a cena pra servir como testemunhas, ligaria pra Secretaria de Justiça do Estado, de preferência falando com o Dimitri Sales na Coordenadoria de Assuntos da Diversidade Sexual, ou pra Defensoria Pública, e faria a denúncia. Também denunciaria o estabelecimento ao PROCON pelo mau atendimento, e diria ao funcionário que vou fazer questão de fazer a caveira da loja entre meus amigos e na internet, e que eles vão sentir no bolso as consequências de destratarem os clientes.
 
 
O que você tem a dizer sobre os gays que só sabem sair pra caçar, e geralmente não se previnem quando saem com algum cara? Na minha opinião, existem dois tipos de cara que não se previnem. Um é o que se acha invulnerável...como se todo mundo pudesse ficar doente, menos ele. Acho que, pra esse cara, falta entrar em contato com mais histórias de pessoas que eram exatamente como ele, e um dia se viram infectados pelo HIV, ou por alguma outra doença sexualmente transmissível, como uma hepatite. Falta ele ter consciência de que quem vê cara não vê saúde e, só porque o parceiro é bonitão e ''com tudo em cima'', isso não quer dizer que ele não está doente. Falta enfiar na cabeça que quem faz o papel ativo na relação também está exposto ao HIV, falta enfiar na cabeça que sexo oral também tem riscos e a camisinha tem que entrar na brincadeira. Outro cara que se expõe é o que tem pouca auto-estima...aquele que não tem coragem de rejeitar o bofe que não quer usar camisinha. Pra esse, falta se valorizar mais, e saber que a saúde dele vale mais do que qualquer momento de prazer, que não vale a pena pagar pelo resto da vida por algumas horas de diversão. Falta ter amor próprio, saber que seu corpo e sua saúde valem muito, e merecem cuidado e respeito. 
 
 
 
 
E essa superexposição de gays na mídia, você vê isso como um chamariz pra aumentar ‘ibope’ ou existe realmente um trabalho social de conscientização dos meios de comunicação para a diminuição da homofobia e o aumento do respeito entre seres humanos? Na maior parte, vejo como um chamariz pra aumentar ibope. Basta ver que a maioria das reportagens não faz questão nem de usar os termos certos (chamam homossexualidade de ''homossexualismo'', chamam travesti de ''ele''), a maioria dos trabalhos de ficção como novelas não retratam a realidade, mostram casais que não se beijam, que não demonstram afeto, que agem como ''amiguinhos''. Mas a exposição no geral é boa mesmo assim, ao menos o jovem que ainda está no armário vê que não está sozinho e, por mais superficial que seja a abordagem do assunto, pode levar a discussão da diversidade sexual pra mesa do jantar de gente que de outra forma continuaria encarando gays, lésbicas e bissexuais como ETs.
 
Declaração final: Convido os jovens gays, lésbicas, bi e trans da Baixada Santista a acessar o blog do E-Litoral: www.blogdoe-litoral.blogspot.com e nossa comunidade no Orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=99103299

, a fazer seus perfis na rede social do E-Jovem, o E-Kut: www.e-jovem.ning.com e entrar no grupo do E-Litoral, e deixar seus comentários, comparecer às atividades, vir trazer suas contribuições. Aproveito pra dizer que estamos organizando uma excursão pra Parada do Orgulho LGBT em Sampa, que dia 16 de maio rola Cineclube no Centro dos Estudantes de Santos na Ana Costa, com o filme Delicada Relação, e que dia 12 de junho vamos projetar o filme brasileiro Do Começo Ao Fim, seguido de debate, no Cine 3D de São Vicente. Os detalhes da excursão e dos cineclubes estão no blog.